Friday, 24th August 2012
18:16
"Porque é que usas maquilhagem?"
Quando me fizeste esta pergunta soube que não ia conseguir explicar-te no momento. Em contrapartida, julguei que teria uma eternidade para o fazer, mas tu partiste antes do sempre e não me parece que vás voltar por enquanto. É por isso que hoje te escrevo. Para te dizer o que não foi dito... Hoje está a chover e eu já estaria lá fora de guarda-chuva em punho e pés descalços se isso não me fizesse lembrar tanto de ti. Mas não estou e nem eu percebo bem o porquê. Afinal de contas, era um velho hábito meu, costumava ir "curtir a chuva" e nunca partilhei desses momentos contigo, mas contei-te. Eu contei-te e tu escreveste sobre isso, não foi? E as tuas personagens éramos nós, não éramos? Bom... há uns anos atrás, quando eu não sonhava que existias e quando eu ainda era uma criança, eu tinha uma amiga. A Kurumi era bonita tal como tu: irradiava uma espécie de luz à volta dela e para mim ela era a criatura mais bela deste mundo. Eu amava-a mais do que a qualquer outra pessoa e tudo por causa de um instante, o instante em que alguma coisa dentro de mim se ajustou num clique. Não sei se alguma vez lerás esta carta, mas eu não tenho mais ninguém a quem falar sobre isto até porque só a ti diz respeito. E ficaram tantas coisas por dizer... Lembro-me dos olhos dela cor de noz, dos lábios cor de cereja e dos cabelos lisos que lhe cobriam os ombros em tons de mel. Ela era realmente bela, pelo menos eu não conseguia ver beleza em mais nada. Sentava-me de pernas cruzadas no fundo da cama dela e fechava os olhos enquanto ela me enchia a cara de maquilhagem e depois eu fazia-lhe o mesmo e nenhuma de nós podia espreitar até termos ambas terminado. Talvez isto te pareça parvo, ou uma simples brincadeira de criança, mas era muito mais do que isso. De todas as vezes que toco num rímel ou numa sombra eu lembro-me dela e sinto um vazio no coração. Essa espécie de vazio que sinto agora enquanto olho para a chuva. E sabes Tori eu fico muito assustada porque ninguém quer ter um coração cheio de buracos, cheio com vazios.
Se um dia quiseres voltar estarei à tua espera. Só tu tens a chave desta casinha de madeira (eu nunca a perdi, eu dei-ta). Estarei à janela a ver-te chegar e perguntar-te-ei: "O que desejas? Mousse de chocolate? Cheesecake?"
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